'A gente se comove', diz chef do Mocotó sobre doação de marmitas

Rodrigo Oliveira fala sobre sua primeira casa fora do Brasil e o projeto Quebrada Alimentada, que distribui marmitas e cestas básicas a vulneráveis

Pratos da primeira casa internacional de Rodrigo vão combinar ingredientes brasileiros

Pratos da primeira casa internacional de Rodrigo vão combinar ingredientes brasileiros

Divulgação/Mocotó

O chef Rodrigo Oliveira, 40 anos, surgiu como um cometa no cenário gastronômico brasileiro. E a partir de uma história bonita. Seu pai, Zé Almeida, pernambucano da pequena e sertaneja Mulungu, abriu uma casa do norte na região da Vila Medeiros, zona norte de São Paulo, com os irmãos Gilvan e Gercino. E, em 1973, sete anos antes do nascimento do filho, partiu para voo solo no bairro com o Bar e Lanches Alcino.

Com um balcão, dez mesas, uma cozinha pequena e simples e apenas quatro pratos: favada, feijão de corda, sarapatel e um caldo de mocotó que rapidamente conquistou paladares e fama no bairro. O sucesso do caldinho transformou logo o Alcino no “Bar do Mocotó” na boca e na memória dos clientes.

Após estudar gastronomia, Rodrigo percebeu, entre tantos caminhos, que o seu estava em casa: utilizar seus conhecimentos para aprimorar o negócio de bairro do pai. A sensibilidade e o talento raros do chef transformaram a casa de seu pai no “Mocotó da Vila Medeiros”, um dos melhores restaurantes do país. E também um dos mais frequentados, apesar de estar em um bairro muito distante das regiões nobres que abrigam as melhores casas do ramo em São Paulo. Conquistou vários prêmios, o selo de Bib Gourmand do Guia Michelin e está entre os 50 melhores restaurantes da América Latina de acordo com especialistas da The World’s 50 Best.

O sucesso do pioneiro Mocotó permitiu a abertura do Balaio IMS, dentro do Instituto Moreira Salles, e de duas unidades do Café Mocotó, uma no Shopping D e outra no mercado de Pinheiros, todos em São Paulo. Agora Rodrigo prepara sua primeira ação internacional: um restaurante na região de North Hollywood, em Los Angeles, nos Estados Unidos. Nesta entrevista, Rodrigo detalha como será a casa americana e a bela ação Quebrada Alimentada, em que ele, a mulher, a historiadora Adriana Salay, e sua equipe distribuem 400 marmitas diariamente, e até 600 cestas básicas e de vegetais mensalmente, a pessoas e famílias vulneráveis do entorno do Mocotó. Acompanhe:

O restaurante em Los Angeles será aberto este ano?
Estamos fazendo o possível para isso. O projeto existe há quatro anos e há dois temos um chefe morando lá para cuidar disso. Será em uma casa no NoHo Arts District, na região de North Hollywood, em Los Angeles. Pensávamos no início em abrir dentro de um hotel. Meus sócios, do grupo Sprout, possuem restaurantes, mas os maiores negócios deles são na área de hotelaria. Depois nos convencemos de que o melhor seria montar fora de um hotel.

Qual será a proposta da casa?
O cardápio mostrará a riqueza gastronômica do Brasil, mas não haverá referência a um único estado ou região nos pratos, como muita coisa forte no Mocotó. As receitas combinarão ingredientes de duas ou mais regiões seguindo os bons resultados das pesquisas e testes que fazemos sempre e os estudos específicos para esse restaurante. Um exemplo do modelo que iremos adotar é a Moqueca de Caju, do Balaio IMS. Um prato vegetariano com ingredientes representativos da Bahia, da região norte e de outros pontos do país, muito aprovado pelos clientes e, não por acaso, o mais pedido da casa. Vamos unir bons ingredientes, frescor e técnica, como é nosso costume, a essa proposta de combinar produtos de pontos distintos do Brasil.

Como surgiu a Quebrada Alimentada, iniciativa de distribuir quentinhas para pessoas vulneráveis do entorno do Mocotó na Vila Medeiros?
Não houve planejamento longo nem qualquer intenção de marketing. Foi projeto zero (rs). Também não foi uma iniciativa empresarial, dos restaurantes, mas da Adri (a historiadora Adriana Salay, mulher de Oliveira), de companheiros de trabalho e minha. Uma atitude de cidadãos que perceberam a necessidade de fazer alguma coisa assim que fechamos as casas no isolamento social. A Vila Medeiros é um bairro proletário da zona norte de São Paulo. Fica numa das beiradas da cidade, distante dos eixos ricos dos grandes restaurantes e com vulnerabilidades. Temos como método empregar pessoas da região em todos os casos em que isso é possível. Várias comunidades do entorno ficaram ainda mais fragilizadas com a pandemia. Quem mais sofre em situação normal é também o mais afetado nesses períodos extraordinários. Por isso resolvemos distribuir as marmitas ou quentinhas. Não houve projeto: a gente simplesmente começou a fazer no dia em que fechou a casa.

Restaurante de Los Angeles terá pratos no modelo da Moqueca de Caju do Balaio IMS

Restaurante de Los Angeles terá pratos no modelo da Moqueca de Caju do Balaio IMS

Divulgação/Balaio IMS

Em 20 de março?
Isso. Não colocamos nada no papel – foi tudo colocado direto nas panelas (rs). Começamos com 50 marmitas. Logo passamos para 60, 80, cem e, hoje, estamos com 200 todos os dias, de domingo a domingo. Produzimos os pedidos dos clientes para o Mocotó Pra Viagem, nosso delivery, e as 200 marmitas, que as pessoas pegam diariamente no Mocotó. Além disso, uma vez por mês, com a ajuda preciosa de parceiros, distribuímos perto de 600 cestas, uma parte de alimentos orgânicos e outra de vegetais, tudo comprado da agricultura familiar, para famílias carentes das comunidades do entorno, com parceria do Instituto Ibia e de outras associações fantásticas. A entrega das cestas começou como um complemento, mas virou algo tão importante quanto as marmitas.

Deve ter muito cliente do Mocotó doido para experimentar as marmitas no padrão Rodrigo Oliveira...
Pois é, brincam muito com isso (rs)... Um ponto unânime entre nós foi o de produzir as marmitas com o mesmo padrão de qualidade adotado no Mocotó, no IMS Balaio e nos cafés. Proteínas, verduras, legumes e queijos sempre frescos. Carne assada, arroz e feijão feitos diariamente, com as mesmas técnicas adotadas nos pedidos de nossos clientes. Ocorrem coisas emocionantes... As pessoas pegam a marmita, voltam e fazem comentários do tipo “que queijo delicioso é aquele... É burrata? Nunca tinha comido...”, “aquele cogumelo é o tal de shimeji? Que delícia aquilo...” ou “o peixe estava maravilhoso”. Sinceramente? Os prêmios de gastronomia obviamente me deram reconhecimento e muita alegria, mas nenhum deles trouxe a recompensa de retornos como esses. A gente se comove muitas vezes.

E o Mocotó, quando vai reabrir?
Temos autorização para a reabertura. Claro que também estamos ansiosos pela volta dos nossos clientes, mas só iremos retornar quando estivermos convencidos da existência de um ambiente mais seguro. Precisamos preservar a saúde das nossas dezenas de funcionários e também a dos clientes. O Mocotó é um restaurante que tem muitas mesas e um grande balcão, muito movimentado, usado pelas pessoas para aguardar uma mesa, tomar uma bebida ou fazer uma refeição mais rápida. E, para nosso orgulho, a frequência é grande, com filas de clientes de todos os lugares. Temos muito movimento e alegria, o que quase sempre produz proximidade e aglomeração. Com aperto, o Mocotó Pra Viagem vai ajudar a manter o Mocotó e as outras casas sem demissões até o final do ano. Tomara que a gente tenha condição de reabrir ainda neste terceiro ou no quarto trimestre do ano. Vamos torcer.