Africanos levam comida a idosos e famílias em isolamento na Itália

Imigrantes sofreram discriminação e denunciaram racismo e exploração em levante. Hoje, unidos em cooperativa, ajudam a salvar vidas em Roma e região

Isolados, moradores de Roma recebem alimentos produzidos por africanos

Isolados, moradores de Roma recebem alimentos produzidos por africanos

Fabio Di Pietro / EFE-EPA - 1.4.2020

Os africanos que conseguem entrar na Europa para sobreviver à fome e tentar nova vida, nas ondas de imigração, sofrem todo tipo de dificuldade, rejeição, preconceito e racismo de grande parte dos europeus. Na Itália, que tem a Sicília, outras ilhas e um pedaço do sul do país muito próximos do norte da África, separados apenas por alguns quilômetros de Mar Mediterrâneo, o desembarque e as reações negativas são igualmente registrados em grande volume.

Mas, por uma dessas peças de suprema ironia que a vida costuma pregar, a pandemia de coronavírus, tão cruel com os italianos, criou uma situação para que um grupo desses imigrantes africanos dar uma grande lição de humanidade os cidadãos ricos da Península.

Com o que produz na Barikama, uma cooperativa de produção de verduras, legumes, hortaliças e derivados de leite criada em 2011 em Casale di Martignano, distante 36 quilômetros de Roma, um grupo de jovens imigrantes africanos está abastecendo casas de idosos e de famílias romanas trancadas em casa, levando alimentos todos os dias para residências da Cidade Eterna e mercados estratégicos da região do Lazio.

A ação de grandeza dos africanos tem ao menos um outro componente de ironia. Em janeiro de 2010, quase todos os cooperados da Barikama participaram do movimento que ficou conhecido na Itália como A Revolta de Rosarno.

Rosarno é uma pequena cidade italiana de vocação agrícola, com 15 mil habitantes, na Calábria. Os jovens da cooperativa e outros africanos, então apanhadores de frutas na região, participaram de um levante por se considerarem explorados pelos donos das terras. E também em protesto contra um ataque racista a um companheiro de trabalho, que o deixou gravemente ferido.

A revolta rompeu o silencio sobre as péssimas condições de trabalho dos imigrantes no interior da Itália. Uma década depois, os mesmos africanos assumem a linha de frente na luta contra o covid-19, a falta de alimentos a a morte de italianos espantados e confinados em suas casas em uma das cidades mais celebradas daquele país e do mundo.

O armazém de distribuição da cooperativa fica em Pigneto, bairro histórico da classe trabalhadora romana.  Barikama significa “força” ou “resistência” em bambara, língua de raízes nigerianas e congolesas muito falada no Mali, país natal da maioria dos imigrantes africanos cooperados.

“Em Rosarno havia entre 200 e 300 pessoas trabalhando sem contrato. Não é possível que ninguém tenha notado. Como eles se livraram de pagar impostos com todo o dinheiro que ganhavam?”, questiona o cooperado Cheikh, ex-jogador de futebol e estudante de biologia no Senegal, a Dario Antonelli, do jornal britânico The Guardian. “Estamos ajudando a comunidade a se alimentar nesses tempos terríveis. É uma coisa bonita”, acrescenta.

“A demanda está mais alta do que nunca porque as pessoas não podem sair. O volume de trabalho dobrou”, comenta Modibo, 32 anos, do Mali, que desembarcou em 2008 na bela ilha italiana de Lampedusa, no Mar Mediterrâneo, para tentar a sorte no país.

A ideia de fundar a Barikama foi dada por um italiano do centro social que os africanos passaram a frequentar após a Revolta de Rosarno. “No começo, produzíamos nossos  legumes e iogurtes e ganhávamos apenas de cinco (R$ 28,55) ou dez euros (R$ 57,10) mensais cada um com as vendas”, lembra Chiekh.

Em 2014, após várias negativas, eles conseguiram fazer acordo com os proprietários de uma fazenda de Casale di Martignano, fundaram a cooperativa e começaram a produzir. Seis anos depois, a Barikama envolve seis hectares de plantação de frutas, legumes e verduras e produz até 200 litros de iogurte por semana.

Cada cooperado faturou 500 euros (R$ 2.855), em média, de janeiro a outubro de 2019, e 700 euros (R$ 3.997) nos meses de novembro e dezembro. A ideia dos integrantes é aumentar o número de mercados, armazéns e empresas na lista de clientes da Barikama e, assim, ampliar o faturamento e, consequentemente, a renda individual de cada integrante.

Mas isso será trabalho para depois - quando o mundo sair do túnel escuro e sofrido do coronavírus.