Canadense demitido por se negar a matar ursinhos vence na Justiça

Batalha judicial teve início em 2015. Agente público abateu a fêmea, mas foi dispensado por poupar dois filhotes. Com a vitória, pedirá emprego de volta

Ambientalistas denunciam abate de milhares de ursos pretos no Canadá

Ambientalistas denunciam abate de milhares de ursos pretos no Canadá

divulgação/Kevin Phillips/Pixabay

O agente ambiental canadense Bryce Casavant teve a primeira vitória contra o poder público numa longa batalha judicial que vem gerando polêmica e debate em seu país nos últimos cinco anos.

Casavant foi enviado, em 2015, a um parque turístico que recebe barracas e trailers nos arredores de Porty Hardy, em British Columbia, com a ordem de abater uma fêmea de urso negro que retirava carne e salmão de geladeiras e revirava lixos na região.

Chegado lá, descobriu que a fêmea estava com dois filhotes. De acordo com a polícia local, Casavant matou a mãe a tiros mas poupou os filhotes, convencido pelos moradores locais de que eles não participavam dos assaltos a geladeiras e lixos protagonizados pela mamãe.

“Em vez de cumprir a ordem de extermínio, ele levou os filhotes a um veterinário, que os avaliou e os transferiu para um centro de recuperação em North Island", diz um registro do processo judicial. Os funcionários do centro devolveram os dois ursinhos à natureza.

Por não ter feito o “serviço completo”, que incluiria o “extermínio” dos dois filhotes, Casavant foi suspenso e, em seguida, demitido. O agente iniciou sua luta judicial em 2015 contra governos de duas províncias e até seu próprio sindicato.

Foi derrotado em instâncias iniciais, apresentou recursos e, nesta semana, teve o primeiro parecer a seu favor dado pela Corte de Apelações de British Columbia.

“Sinto que as nuvens negras que pairaram por anos sobre mim e meus familiares começam, finalmente, a se dissipar”, declarou um aliviado Casavant a Leyland Cecco, do jornal britânico The Guardian. “Mas a alegria ainda não é completa: minha demissão jamais deveria ter ocorrido”.

A decisão da corte de apelações não obriga a readmissão imediata, mas o agente e seus defensores estão certos de que ela será determinada em pouco tempo nos próximos recursos.

“Continuei lutando para limpar meu nome. Sempre defendi o serviço público, a honra e a integridade. Assim fui criado e criei minha filha”, acrescenta Casavant. “Fui alvo de uma decisão injusta”.

No início de 2020, ambientalistas da região protestaram contra a ordem de abate de um urso pardo flagrado comendo lixo. Os manifestantes conseguiram que o animal fosse levado para outro local, onde ele acabou sendo abatido a tiros por desconhecidos.

A organização ambiental Pacific Wild, que hoje recebe a colaboração de Casavant, denuncia que mais de 4,5 mil ursos foram mortos por agentes públicos nos últimos oito anos na região, entre eles 4,34 mil pretos.

“A British Columbia não é uma galeria de tiro para funcionários do governo", escreveu Casavant num relatório da Pacific Wild. "Não é razoável acreditar que mais de 4 mil ursos pretos, incluindo filhotes, foram mortos ‘como último recurso’”, acrescentou ele.