Entenda como a literatura pode ser refúgio para tempos de crise

Especialistas defendem a literatura como ferramenta de compreensão dos tempos e desenvolvimento emocional

Especialistas defendem a literatura como apoio terapêutico

Especialistas defendem a literatura como apoio terapêutico

Retha Ferguson

Em 1988, o sociólogo, crítico literário e quatro vezes vencedor do prêmio Jabuti Antônio Cândido defendia a literatura como um direito básico do ser humano em um de seus mais famosos discursos. Para Cândido, tratava-se de uma necessidade universal que “liberta do caos, e, portanto, humaniza.” Mais de três décadas depois, suas palavras seguem atuais. De acordo com especialistas, a literatura não só é uma ferramenta de compreensão do mundo como também tem um grande papel nos processos de formação psicológica do indivíduo.

Em um 2020 enredado por acontecimentos que parecem ter saído da ficção, não é surpreendente que distopias literárias como Admirável Mundo Novo, O Conto da Aia e 1984 estejam entre os títulos mais buscados ao redor do mundo. Em março, A Peste”, romance de 1947 de Albert Camus, entrou para a lista dos mais vendidos na Itália em plena pandemia.

Contamos histórias para tentar compreender a nossa experiência, para buscar, criar ou lidar com a falta sentido
Fabianne Secches

“Ler pode ser um exercício de sensibilidade, imaginação e reflexão, bem como de empatia e alteridade”, é o que aponta a psicanalista e doutoranda em Teoria Literária Fabianne Secches. Autora de Elena Ferrante: uma longa experiência de ausência — livro no qual analisa não só as obras da autora como a atenção do público aos bestsellers — Secches chama atenção para a antiga ligação entre a psicanálise e a literatura, defendendo-a como uma ferramenta para lidar com tempos de crise por “identificação, catarse ou extrapolação”.

Foi através da catarse proporcionada pelos livros em um momento de profunda crise pessoal que o jornalista e empresário Leonardo Teixeira, 30, encarou a perda da mãe, em outubro de 2017.

“O luto deixa a gente um pouco fraco. Quando adquiro conhecimentos novos, vou me sentindo mais forte”, explica Leonardo, que na época se refugiou em títulos mais leves.

Eu não estava somente preso à minha sensação de luto, mas podia entender outros sentimentos de dor ou alegria por meio da literatura
Leonardo Teixeira

Navegar pela sensação de perda precisou não só da ajuda dos livros, como da terapia, a qual Leonardo recorreu um ano depois. Durante o processo, ele conta que a escrita também foi crucial para expor suas angústias.

“Eu me entendia por dentro. Além de compartilhar isso, eu conseguia compreender o meu nível de sofrimento e o que era preciso para botá-lo para fora.”  

Em Lisboa, um método muito semelhante ao usado por Leonardo virou abordagem terapêutica na clínica The Therapist. Intitulado biblioterapia, o processo consiste em sessões nas quais o paciente trata questões emocionais com o auxílio dos livros.   

Febre de autoajuda

O psicólogo e doutor em neurociência Yuri Busin defende que há uma variedade de questões emocionais que podem ser discutidas de forma lúdica pela escrita. Ele conta que tem o hábito de indicar leituras para seus pacientes que se relacionem com o momento em que se encontram.

“Existe uma falha na comunicação da importância da literatura na vida, não só como ‘eu preciso saber disso para passar no vestibular’. Há temáticas universais nos clássicos que têm o poder de tocar gerações.”

Desenvolvimento pessoal está entre gêneros mais vendidos do país

Desenvolvimento pessoal está entre gêneros mais vendidos do país

Pixabay/Reprodução

Embora defenda o apoio nos livros como uma etapa legítima em processos terapêuticos, Busin levanta ressalvas para o aumento do consumo de gêneros como autoajuda. “Não é de todo mal. O ponto é que muitas pessoas procuram soluções imediatistas no gênero, que não substitui terapia. Não é porque a forma de escrita é fácil que o conceito será fácil.”

De acordo com um relatório desenvolvido pela Nielsen Bookscan, cerca de metade da lista dos dez livros mais vendidos do país pertencem à categoria de desenvolvimento pessoal entre o período de 13 de julho a 9 de agosto. Entre os destaques, títulos como A Sutil Arte de Ligar o F*da-se, Milagre da Manhã e Mais Esperto que o Diabo ocuparam o ranking nas quatro semanas analisadas.

A psicanalista Fabianne Secches enxerga a lista como um sintoma de uma sociedade exageradamente focada em ser produtiva e otimizar experiências.

“Não há nada de errado em querer buscar conhecimento e autoconhecimento nos livros, ao contrário”, explica Secches. “Mas no lugar de focar na estação de chegada, podemos apreciar o caminho, confiando que a transformação pode estar em curso de uma forma mais complexa.”

O poder de uma boa história

Durante a pandemia, a professora estadual Maria Aparecida Dias Silva, também conhecida como Professora Mariá, introduziu uma oficina virtual de contação de histórias para seus alunos. Ela conta que após compartilhar a fábula “A Cigarra e a Formiga”, foi surpreendida pela mensagem de um de seus alunos: “O que seria das formigas se tivessem que trabalhar sem o canto da cigarra?”. A pergunta a levou a refletir sobre a importância da cultura em meio ao momento atual.

“Os contos e parábolas trazem à criança um poder autoorganizado. Ela é obrigada a pensar na situação que está vivendo”, defende a professora. “Isso é uma formação cultural de conceitos extremamente importantes dentro da criança.”

O cordelista José Walter Pires e sua cordelteca

O cordelista José Walter Pires e sua cordelteca

Reprodução

Quem também faz coro pela valorização da literatura enquanto formação cultural é o cordelista José Valter Pires, membro da Academia Brasileira da Literatura de Cordel. “O ato de ler consiste em uma grande virtude. Quem um livro jamais leu, não vive com plenitude”, declara o autor, em referência a um de seus trabalhos. Durante os últimoos cinco meses, José Valter, irmão do músico Moraes Moreira, conta que tem se refugiado em sua cordelteca, onde passa cerca de 8 horas diárias.

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“O livro dá essa condição de liberdade em abrir as portas para o conhecimento. O cordel foi o gênero que levou cultura para o sertão. Foi a cartilha quando muitas pessoas aprendiam a ler”, explica. “Os poetas trazem essa tradição popular muito forte, mas que ao mesmo tempo foi visto de forma perjorativa.”

“Ser escritor no Brasil ainda é muito difícil. Ser escritor no Brasil, no interior da Bahia, onde Judas perdeu as botas, é muito mais.”