Falar sozinho não é coisa de maluco. E faz muito bem à saúde mental

Milhões no mundo praticam o solilóquio, hábito de tagarelar para os próprios ouvidos. Não é motivo de constrangimento. Ao contrário: melhora a vida

Hábito de falar sozinho é comum

Hábito de falar sozinho é comum

Pixabay

Muitos fingem cantar ao serem percebidos em ação em calçadas, ruas, espaços públicos, filas de espera, locais de trabalho ou num quarto ou sala de casa. O movimento frenético da boca, o volume crescente da voz e, às vezes, até os gestos firmes denunciam tudo.

São dribles conhecidos e utilizados a todo instante, no Brasil e no mundo, por milhões de constrangidos, na tentativa de disfarçar um hábito muito mais comum do que se imagina: o solilóquio – ou, em palavras mais simples, ditas em voz alta, o velho e, acredite, bom hábito de falar sozinho.

Do latim soliloquium (de solo, ou para si mesmo, e loquor, de eu falo), solilóquio é um termo tomado emprestado do teatro e da literatura. Nos palcos, dá nome a um dispositivo usado quando a personagem fala para si mesma.

Adaptada ao cotidiano, a palavra esquisitona significa o costume de milhões e milhões de pessoas de falar aos próprios ouvidos, sem um interlocutor ou alguém em frente ou ao lado, para ouvir a teoria ou o raciocínio.

O que muitos não sabem é que o ato de tagarelar consigo mesmo não deve ser motivo de constrangimento. Está longe de ser “coisa de maluco”, “gente pirada” e tampouco de alguém “surtando”. Na suprema maioria das situações, a prática é útil, saudável, tem seu lado positivo e não está associada à falta de capacidade de comunicação com outras pessoas.

Ao contrário: o hábito de falar sozinho faz muito bem, obrigado. À vida e à saúde mental. Apenas em casos clínicos específicos ele pode ser sintoma de solidão crônica ou, mais grave, alguma doença mental, psicológica ou psiquiátrica.

A ciência ainda não conhece todas as causas e funções que geram o costume de falar sozinho em um adulto saudável. Pesquisas mostram, no entanto, que se recorre à prática, basicamente, por três motivos: aliviar a solidão, chegar a conclusões e ter coragem sobre o que fazer diante de tarefas e desafios difíceis, e refletir sobre temas e situações complicadas de se dividir com outras pessoas.

“Falar sozinho, antes de tudo, é útil para duas coisas importantes: organizar ações e amenizar a solidão”, explica ao R7 a psicoterapeuta, professora e escritora Karina Fukumitsu, mestre em Psicologia Clínica pela Michigan School of Professional Psychology, nos EUA, e pós-doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP).

A psicoterapeuta destaca os benefícios de se ouvir a própria voz nas situações em que é preciso tomar decisões difíceis: “É se beneficiar de uma ação própria com objetivo de se fortalecer. Ao falar e ao mesmo tempo ouvir o que se disse, a gente aciona os dois lados do cérebro - e isso é muito bom para a autoconfiança”.

Karina destaca que o ato de falar sozinho deve ser observado com atenção nos casos em que há exagero e domínio da rotina a ponto de isolar a pessoa do convívio social e dar a ela a sensação de que se basta. “Situações como essa podem gerar necessidade de acompanhamento, mas são raríssimas. Na maioria  dos casos, não tem nada a ver com transtorno mental. Entre outros benefícios, reforça a memória, a concentração e a autoconfiança, E, não bastasse, ainda descobrimos bons interlocutores para nós mesmos. Quer coisa melhor do que isso?”.

A memória é outro fator beneficiado com a prática de falar sozinho

A memória é outro fator beneficiado com a prática de falar sozinho

Hans/Pixabay

Em grande parte, o psicoterapeuta, sustenta Karina, funciona como um catalizador que leva as pessoas a reencontrarem força e motivação para realizar coisas e tomar decisões que, no fundo, elas sabiam serem corretas mesmo antes da terapia. “Ao falar sozinha, reforçando um pensamento ou atitude, a pessoa, na prática, cumpre parte desse processo desenvolvido de forma mais profunda no caminho terapêutico”, acrescenta ela.

O pesquisador Gary Lupyan, professor associado de Psicologia da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, liderou uma pesquisa sobre o impacto na memória de quem escuta a si mesmo.

Voluntários foram colocados para olhar objetos parcialmente dissimulados e escondidos em telas de computador. Uma parte foi orientada a dizer em voz alta o nome dos objetos. A outra, apenas a olhar e a permanecer em silêncio. Na segunda etapa, os participantes do grupo que pronunciou os nomes dos objetos conseguiram localizá-los muito mais rapidamente em outras telas.

Em outra experiência do tipo, metade de um contingente de voluntários foi estimulada a dizer em voz alta o nome de alimentos encontrados em supermercados. E a outra parte, apenas a pensar nos produtos. Em seguida, os integrantes dos dois grupos passaram a localizar os alimentos em fotos. De novo, os que disseram as palavras encontraram os alimentos com maior rapidez.

Falar sozinho é importante também para as crianças, e muito comum no universo dos pequenos. Contribui para aprimorar o raciocínio, desenvolver novas habilidades e fortalecer a coordenação de ações e os pensamentos.

Até onde sabem os cientistas, não existe um problema de base a motivar o hábito de falar sozinho. Por isso, o solilóquio pode durar muito, até a vida inteira. Ele só se torna preocupante quando surge como sintoma de isolamento e autossuficiência social, em pessoas sem doenças mentais, em distúrbios, como a esquizofrenia, ou em delírios, alucinações, surtos e outras psicopatias geradas por problemas psiquiátricos.

“Mas são situações específicas, que demandam ajuda psiquiátrica e psicoterápica. Não possuem relacionamento com os vários milhões de casos, no dia a dia do mundo, em que gente saudável se beneficia do costume de falar sozinho para organizar pensamentos, estratégias, superar desafios e amenizar momentos de solidão”, compara Karina.

“Nas pessoas sãs, o solilóquio é um recurso, uma atitude consciente. Nos distúrbios mentais, ao contrário, ele é consequência, um sintoma, um efeito do quadro de distúrbio que precisa ser cuidado. São coisas completamente diferentes”, destaca a psicoterapeuta.