Movimento pelo Brasil ajuda a dar visibilidade à população de rua

O BR Invisível narra histórias reais, de pessoas que vivem em situação de rua. O projeto tem a intenção de fazer a causa ser vista pela sociedade

Causa da população de rua ganha visibilidade com o trabalho do BR Invisível

Causa da população de rua ganha visibilidade com o trabalho do BR Invisível

Reprodução/Instagram SP Invisível

Contar histórias é a ação principal do SP Invisível. O projeto surgiu em 2014, com o intuito de mostrar para a sociedade as pessoas em situação de rua e suas histórias. Assim, através da conscientização, essas pessoas podem ser vistas e ajudadas.

As histórias começaram a ser contadas pelo Facebook e hoje podem ser lidas em todas as redes sociais.

Além de registrar os relatos, André Soler, fundador do projeto, percebeu que era necessário mais. Por isso, o movimento também realiza ações, como a SP Sem Frio, que ocorreu recentemente. Durante o inverno, são distribuídos kits compostos por moletom, cobertor, produtos de higiene e, durante a pandemia, máscara e álcool em gel.

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"Eu já tive um passado feio, hoje sou um cara de Deus, dá até vontade de chorar. Meu nome é Edson, tenho 56 anos, mas já tirei 17 anos de cadeia, pra você ver. A gente vai porque quer mesmo, você acaba indo no embalo. E eu tive tudo, meus pais me deram estudo, segundo grau completo fiz curso técnico em Administração e joguei tudo pro ralo, me arrependo ao último. Mas nunca é tarde, desde 2007 que eu não tenho mais problema com nada. Tô aqui, ainda passando uma dificuldade, mas não é muita. Mas depois que eu sai voltei pra casa, vida normal, eu casei 2, 3 vezes, já criei filho que não é meu, mas no maior carinho, eu crio mesmo. Eu tenho casa mas eu briguei com minha cunhada e pra não xingar, uma discussão besta, e pra não magoar meu irmão, eu não posso brigar com minha cunhada, eu amo minha cunhada. Então eu tô dando um tempo e passando essa situação na rua aqui. Primeira vez, mas não vou ficar nisso não, é a maior dificuldade quem fica na rua. Eu tô pensando aqui, nos meus devaneios, essa semana mesmo tô pensando em voltar pra casa conversar com minha cunhada, bater de frente com ela, porque eu sei que ela não é minha inimiga. Eu consigo ver a beleza, antes não conseguia ver o mundo bonito, toda hora o Pai fala "Levanta a cabeça!", eu olho as pessoas e não tem ninguém feio, eu vejo casal de homem e homem e eu falo "Deus abençoe gente, vai na paz que acabou o preconceito", quem vai reinar aqui não é PCC não, é Deus mano, Deus reinando e sempre, eu acredito na vida eterna agora. Se isso servir de mensagem pra alguém, pra não ficar nessa vida que não presta, tem que procurar trabalhar, não consegue trabalho!? vai catar latinha, faz alguma coisa pô, não pode acordar desanimado, tem que olhar pro céu pedir a Deus, rezar um Pai Nosso e ele dá providência. Ele tá cuidando de mim, ele que trouxe vcs aqui hoje, vocês acreditam?! Desculpa ai falô... Não consigo mais... Maior satisfação! Obrigado, ganhei o dia, I love you, amo vocês!" #SP #SPinvisivel Participe do nosso financiamento coletivo recorrente no catarse.me/spinvisivel (LINK NA DESCRIÇÃO), com apenas 14 reais mensais, fique por dentro e participe das ações! : Fernanda Moretzsohn

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O movimento cresceu e se expandiu pelo Brasil. Atualmente, está em mais de 15 cidades brasileiras, dando origem ao BR Invisível, e dando voz e corpo àqueles que, muitas vezes, deixamos de olhar.

Este ano os movimentos de várias cidades que compõem o BR Invisível realizaram sua primeira ação em conjunto, o BR Sem Frio. Foram entregues 2 mil kits em oito cidades brasileiras: Atibaia, Campinas, Guarulhos, Rio Preto e São Paulo, em SP, Brasília, Rio de Janeiro e Salvador.

Invisíveis pelo Brasil

Em Brasília, o movimento surgiu pelo incômodo que Maria Baqui sentia. Ao perceber que as pessoas têm o costume de fechar os olhos para aquilo que vai além da sua realidade, em julho de 2018, ela e seu noivo, Pedro Campos, deram início ao BSB Invisível.

População de rua quer ser vista

População de rua quer ser vista

Reprodução/Instagram SP Invisível

“A maior carência é a de afeto; ser visto”, relata Maria. Segundo ela, antes de qualquer necessidade material, as pessoas em situação de rua sentem a necessidade de inclusão. 

Nas ações da capital federal, os voluntários entregam cestas básicas, roupas e até móveis. Em Brasília existem muitos barracos e a doação de móveis ajuda a compor essas casas. “Assim, conseguimos resgatar e preservar os diretos básicos dessas pessoas”, observa Maria.

No Rio de Janeiro, a desigualdade é muito evidente, relata Letícia Messias. “É importante mostrar essa desigualdade tão clara. A partir disso, a gente vê uma movimentação de pessoas compartilhando as histórias e ajudando", conta.

Para ela, o Rio Invisível é a esperança de um novo olhar e a chance de derrubar preconceitos.

Visibilidade como forma de ajuda

Foi narrando tantas vidas que muitas delas puderam sair das ruas. “Graças à visibilidade, a sociedade se moveu”, diz Pedro Quintino. Ele está à frente do projeto na cidade de Rio Preto (SP) e conta que, graças às histórias compartilhadas, e com o apoio daqueles que se comoviam, o projeto ajudou pessoas que estavam em situação a retornarem a suas casas.

O mesmo acontece em Salvador. Mariana Sá contou ao R7 que, com as histórias, ela acredita que a sociedade passou a olhar mais para a população de rua, e com isso, aumentou o número de ajuda. “As pessoas foram mudando. Passaram a olhar a população de rua com outros olhos, e perceber que elas têm desejos, têm talentos”, opina.

O fundador do movimento em São Paulo, André Soler, explica a importância de ouvir as histórias da população de rua e da visibilidade: “A solução dos problemas sociais dos moradores de rua tem que vir a partir das pessoas que sentem essa dor. E, na maioria das vezes, isso acontece a partir do ponto de vista de alguém que não está passando por isso", afirma.

População de rua cresce a cada ano

De acordo com dados recentes do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), são quase 222 mil pessoas em situação de rua no Brasil. Desde 2012, a população nas ruas aumentou 140% e tende a crescer devido à crise ocasionada pela pandemia da covid-19. 

Pesquisas recentes do instituto alertam que a propagação do novo coronavírus aumenta a vulnerabilidade de quem vive na rua e exige atuação mais intensa do poder público.