Virtz Paulista supera trauma familiar e se destaca em arte marcial no Brasil

Paulista supera trauma familiar e se destaca em arte marcial no Brasil

Após descobrir em um livro porque seus pais o queriam longe das espadas, Yamauchi vira fera no Iaidô, atividade feita com a arma

  • Virtz | Eduardo Marini, do R7

Yuji Yamauchi em ação em uma competição da arte marcial Iaidô em São Paulo

Yuji Yamauchi em ação em uma competição da arte marcial Iaidô em São Paulo

arquivo pessoal

O Iaidô é a arte marcial baseada nos atos de desembainhar e utilizar uma espada. No Japão, onde surgiu, tem milhares de praticantes e seus mestres são muito populares. A prática envolve apenas uma pessoa, que faz movimentos solo com a espada contra um inimigo imaginário.

No Brasil, a atividade ainda pode ser considerada novidade. Pouco mais de dez anos após sua implantação, foram realizados apenas sete campeonatos nacionais. A primeira seleção brasileira reuniu-se em 2019.

Cerca de 1,1 mil pessoas praticam o Iaidô no país, a maioria descendente de japoneses. Entre elas está o paulistano Henrique Yuji Yamauchi, 34 anos, tricampeão e duas vezes vice-campeão nacional, integrante da seleção brasileira, instrutor e terceiro dan numa escala de faixa preta que, no caso desta arte marcial, vai de um a oito.

“Praticamos o Iaidô em busca de aperfeiçoamento através do treinamento contínuo”, explica Yuji Yamauchi ao R7. “Entre outros pontos positivos, a atividade desenvolve conhecimento marcial, concentração, disciplina e autocontrole”, enumera.

Filho de pai descendente de japoneses e mãe de família italiana, ele se encantou ainda menino pelas espadas dos samurais. “Elas formam um símbolo da cultura e do espírito guerreiro em defesa do Japão. Hoje não representa violência, e sim de orgulho entre os japoneses” destaca.

O faixa preta em treinamento. Atividade é contra inimigo imaginário

O faixa preta em treinamento. Atividade é contra inimigo imaginário

arquivo pessoal

Na infância e na adolescência, por várias vezes ele teve o pedido de ser presenteado com uma espada samurai negado pelo pai, Rubens Yoshikazu Yamauchi. “Deixava claro que minha intenção jamais era atingir alguém, mas praticar uma arte marcial muito admirada no país dos ascendentes dele, mas meu pai recusava e não apresentava motivos. Dizia não e pronto.”

A explicação para Yuji Yamauchi veio no ano de 2000, aos 15 anos, com a leitura de Corações Sujos, de Fernando Morais. O livro detalha a história da Shindo Renmei, organização formada no Brasil por imigrantes japoneses que se recusavam a acreditar na rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial.

Em meio à divulgação de notícias falsas para fazer acreditar que as forças japonesas ainda guerreavam, e em campanha vitoriosa, os ultranacionalistas mataram vários imigrantes japoneses convencidos da rendição, boa parte deles a golpes de espada.

“Descobri no livro que meu bisavô, Kenjiro Yamauchi, era um dos ideólogos da Shindo Renmei em Tupã, no interior do Estado de São Paulo. E Fusatoshi, um dos filhos dele, irmão do meu avô paterno, um líder muito ativo e influente na organização”, revela Yuji. “O segredo estava revelado: eu precisaria superar um trauma familiar se quisesse realizar meu sonho de praticar artes marciais ligadas ao uso de espadas”, lembra.

o tricampeão Yuji Yamauchi (ao centro, de branco) e sua equipe em São Paulo

o tricampeão Yuji Yamauchi (ao centro, de branco) e sua equipe em São Paulo

Arquivo pessoal

Na página 176 de Corações Sujos, um episódio envolvendo Fusatoshi dá a dimensão da fidelidade dos seguidores à Shindo Renmei:

Preso em Tupã e levado para São Paulo, Fusatoshi Yamauchi não fora acusado de nada, apenas era filho de Kenjiro Yamauchi, tesoureiro da Shindo Renmei na cidade. Apesar de saber que seria libertado se aceitasse calado os insultos da polícia - e mesmo tendo sido ameaçado de “levar chicotadas” se não fizesse o fumie, ele se recusou a pisar e a cuspir num cartaz com a foto do imperador. O policial que o interrogava numa sala do quarto andar do prédio do DOPS, no centro da cidade, perguntou de surpresa:
“Se o imperador mandasse pular desta janela, o que você faria?”
Yamauchi não precisou pensar para responder:
“Pulo mesmo”.
O investigador desabafou em voz alta:
“Esse não tem jeito, vai para a Ilha Anchieta (Nota da Redação: ilha em Ubatuba, litoral norte de São Paulo, que abrigou uma prisão)”.
Foi mesmo, e lá permaneceu preso até 1948, sem que pesasse contra ele nenhuma acusação. Se revelasse às autoridades que era pai de filhos brasileiros menores de idade, Yamauchi certamente seria beneficiado com a liberdade. Mas isso significava deixar sozinho na prisão o velho pai - e ele preferiu permanecer preso. Ao ser libertado, Yamauchi juntou as economias, comprou uma moto Indian de 1200 cilindradas e resolveu percorrer o Brasil “para compensar” os dois anos que passou na prisão.

Mesmo tendo descoberto o trauma familiar, Yuji Yamauchi ainda esperou mais quatro anos para realizar seu sonho. Aos 19, incentivado por sua mulher, descendente de italianos como a mãe, comprou sua primeira espada.

Hoje, Yuji Yamauchi, que vive de rendimentos como profissional de telecom e marketing, atua como instrutor de Iaidô na Associação Cultural Piratininga, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, onde a arte marcial é ensinada gratuitamente (o aluno paga apenas taxas de associação, para que o clube mantenha o espaço).

É também árbitro e examinador de graduandos. “Minha meta agora é divulgar o trabalho para inspirar novos praticantes”, conta. Para isso, montou no um perfil no Instagram

“Hoje, felizmente, a espada samurai é vista como algo positivo na casa de meus pais. Deixou de ser motivo de vergonha. Agora, é de orgulho e alegria”, comemora.

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