Projeto capacita profissionais de turismo a atender crianças autistas

Empresária de SP criou o programa de inclusão após sofrer constrangimentos em viagens com o filho. Meta é expandir o atendimento para as escolas

Empresárias treinam funcionários da área de turismo a lidar com crianças autistas

Empresárias treinam funcionários da área de turismo a lidar com crianças autistas

Pixabay

Desinformação, incompreensão, preconceito. São muitos os obstáculos enfrentados por crianças autistas e seus pais ou familiares nos mais diversos ambientes. Estabelecimentos comerciais, turísticos e escolas não possuem preparo para lidar com as características do espetro autista.

Após identificar a falta de capacitação profissional em alguns setores, como serviços e ensino, a administradora de empresas Amanda Souza Silva Ribeiro, de 36 anos, mãe de Arthur, hoje com 3 anos, diagnosticado com autismo aos 20 meses, decidiu agir.

Dona de uma assessoria de casamentos, uma loja de decoração e produtora de festas —, ela se afastou dos negócios para, junto com a psicóloga comportamental Maria Luiza Jordão, de 26 anos, fundar a Incluir Treinamentos. Desde abril de 2019, a empresa já treinou cerca de 150 profissionais.

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"Estava no hotel e me deram uma ficha para quem possuísse necessidades especiais. Entreguei, a moça [recepcionista] disse que o Arthur não poderia brincar porque o estabelecimento não sabia como lidar [com autistas]. O autismo não é visível e as pessoas não entendem o que tem por trás. Quando voltei, comentei com a psicóloga dele sobre treinar os hotéis para receber crianças autistas", contou Amanda.

Certificada pelo Conselho Internacional de Credenciais e Padrões de Educação Continuada (IBCCES, na sigla em inglês), Amanda se tornou a primeira brasileira qualificada a lidar com autismo em viagens. Agora, além da Incluir, administra um perfil no Instagram (Mamãe que Viaja), que oferece dicas e orientações para viagens com crianças autistas. "Consigo fazer viagens tranquilas e ajudo mães a fazê-las", comemorou.

Escolas: preconceito e despreparo

Amanda e a sócia têm planos para expandir a área de atuação da empresa. A intenção é atender o setor de ensino fundamental, no qual ainda há uma série de limitações, falhas e falta de vontade para lidar com crianças autista. As empreendedoras já realizaram um treinamento na área, mas enfrentam resistência, principalmente das escolas particulares, por causa dos custos para receber um aluno especial.

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"Ouvi que, se fizessem o nosso treinamento, a escola iria 'encher de autista'. As escolas não querem ser treinadas, porque a lei diz que o autista tem o direito de ter um acompanhante terapêutico e a escola tem que providenciar. Os pais não precisam pagar nada a mais por isso. Eles pensam que terão que dispor de um professor a mais", contou Amanda.

Amanda (ao fundo) e Maria Luiza ministram palestras

Amanda (ao fundo) e Maria Luiza ministram palestras

Arquivo Pessoal/ Amanda Ribeiro

A empresária revelou que muitos estabelecimentos de ensino não cumprem a legislação em vigor — Lei Berenice Piana (12.764), sancionada em 2012, que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtornos do Espectro Autista —, negam matrículas para autistas e cobram valores indevidos.

"As escolas particulares ainda não estão cumprindo isso. Em algumas, os pais pagam. E foi o meu caso. Pago a escola e a acompanhante terapêutica. Não vou brigar com a escola, porque foi a única que aceitou o meu filho", ponderou a mãe especial.

Barreiras invisíveis

De acordo com dados do Ministério da Saúde, o Brasil possui cerca de dois milhões de pessoas com o TEA (Transtorno do Espectro Autista). Para crianças e adolescentes, as dificuldades de inserção social e relacionamento são os maiores obstáculos.

A escritora de textos sobre o TEA Fatima de Kwant, mãe de um autista adulto, que mora na pequena cidade de Papendrecht, no sul da Holanda, desde 1985, enfatiza que o autismo é uma deficiência complexa, nem sempre visível para a sociedade, e as barreiras atitudinais são encontradas com frequência pelos pais.

Segundo a especialista, ainda que várias instituições tenham aderido o símbolo do autismo (laço com o quebra-cabeças do autismo) na lista de deficiências, como algumas empresas aéreas, supermercados e outros, é necessário ais adesão por parte de todos os setores.

Fatima de Kwant mora na Holanda com o filho Edinho, hoje com 23 anos

Fatima de Kwant mora na Holanda com o filho Edinho, hoje com 23 anos

Reprodução/Instagram @fatimadeKwant

"Quando uma criança é mas não parece autista, ela sofre mais preconceito do que aquela que tem uma deficiência mais óbvia, como os cadeirantes, os deficientes físicos e o deficiente intelectual grave. As pessoas à volta dificultam as situações já difíceis com seus olhares ou comentários negativos. Pais e mães ficam dependendo da boa vontade dos atendentes, já que uns compreendem e outros, não, negando a preferência à família", lamentou.

Por isso, a empreendedora, que mantém um perfil no Instagram voltado para as mães que, como ela, precisam lidar com o autismo, comemorou a iniciativa de Amanda e Maria Luiza, que visa ampliar o conhecimento sobre o tema nos mais diferentes estabelecimentos comerciais e espaços públicos.

"Quando nasce um autista, nasce também uma nova mãe, uma nova mulher. Para a pessoa resiliente, a dificuldade estimula a criatividade. Sendo assim, vamos do luto à luta. Muitas das melhores ações pelos autistas são iniciadas por pais e mães. Afinal, sentimos na pele as dificuldades e sabemos dizer o que poderia melhorar para que nossos filhos fossem incluídos ou tivessem as mesmas oportunidades que as crianças típicas", comentou a especialista.

Entretanto, Fatima de Kwant lembra que a recente inclusão do CID (Código da Deficiência no RG) e a aprovação do Senado para a Carteira de Identificação do Autista têm provocado a quebra de algumas barreiras em relação ao autismo. "Aguardamos o dia em que toda pessoa com autismo possa ter prioridade no atendimento geral, o que não é um privilégio, mas um direito conquistado por lei", afirmou.

Fatima também fez questão de ressaltar que o autismo não afeta somente o portador do TEA, mas a família também. Por isso, assim como muitas outras mães, ela superou dificuldades, procurou se informar sobre o autismo — os níveis do espectro, tratamentos, prognósticos — para oferecer a melhor qualidade de vida possível ao filho.

"Antes de ser a especialista, conscientizadora e ativista que hoje sou, eu era só a mãe do Edinho, nascido em 1996 com autismo severo, com todos os sinais e desafios que o acompanham. Na época, não havia internet, não havia conhecimento e autismo era o fim do mundo. Ser [mãe de] autista nunca foi fácil mas, acredite, no século passado era pior", completou Fatima.