Virtz Roteirista dá conselhos de graça em parque e avenida de São Paulo

Roteirista dá conselhos de graça em parque e avenida de São Paulo

Romeu Conselheiro já atendeu mais de 500 pessoas. Relações afetivas, questões profissionais e de família são temas campeões

  • Virtz | Eduardo Marini, do R7

Romeu Conselheiro e sua placa na Avenida Paulista

Romeu Conselheiro e sua placa na Avenida Paulista

Arquivo Pessoal

O roteirista, diretor e professor paulistano Romeu di Sessa, de 61 anos, é um profissional reconhecido. Organiza cursos de roteiro elogiados e assina trabalhos importantes para cinema, teatro e tevê. Dentre os prêmios conquistados em mais de 30 anos de carreira estão o Kikito de Melhor Média Metragem, em Gramado (RS), e os Candangos de Melhor Filme e Melhor Direção, em Brasília, em 1997.

Poucas atividades proporcionam a ele, no entanto, satisfação pessoal tão intensa quanto a mais recente, assumida em 2015. Nas tardes de domingo, por volta das 16h, o roteirista ocupa um ponto do Parque do Ibirapuera ou da Avenida Paulista, em São Paulo, e se transforma em Romeu Conselheiro.

Di Sessa acomoda-se numa ponta do banco, coloca no tripé uma placa onde se lê “Dou conselho sobre (quase) tudo. Experimente. Sim, de graça” e fica à espera de pessoas que queiram sentar para ouvir sua opinião sobre dúvidas de (quase) todas as naturezas e problemas emocionais, afetivos, profissionais ou existenciais. Sem cobrar um tostão por nada.

“Essa é uma atividade paralela que exerço desde 2015. Devo dizer que tenho muito orgulho dela: eu dou conselhos. Vou aos domingos na Avenida Paulista, ou no Parque do Ibirapuera, sento-me a um banco com a plaquinha e fico ali esperando. Sempre param várias pessoas que curtem a iniciativa e pedem conselhos", diz ele.

"E, muitas vezes, elas saem desse encontro com alguma coisa a mais, que pode realmente ajudá-las, pelo menos um pouco, em alguma questão das suas vidas”, explica Di Sessa.

Com pandemia, atendimento continua na internet

O ponto de Conselheiro na Avenida Paulista fica na esquina com a Alameda Campinas. No Parque do Ibirapuera, ele ocupa um banco próximo ao estacionamento da entrada do Portão 7, na Avenida República do Líbano.

Por causa da pandemia, o atendimento presencial nos dois pontos está temporariamente suspenso. Mas o roteirista continua na ativa, dando conselhos gratuitamente em suas páginas no Facebook e em seu site pessoal.

O roteirista aconselha acompanhar as páginas para saber quando ele voltará às conversas olho no olho nos bancos. E, após o retorno, para descobrir em qual ponto ele estará a cada domingo.

Algumas reviravoltas da vida levaram Di Sessa a assumir o alter ego de Romeu Conselheiro. A primeira foi uma separação dura e trabalhosa em 2013. “Virei uma espécie de serial flirt (namorador serial) nas redes sociais e sites de relacionamento”, brinca ele, em entrevista ao R7.

Em um desses contatos, o roteirista ficou amigo de uma moça. Logo percebeu que a página dela no site de relacionamento tinha fotos e textos, digamos, inadequados e sem força suficiente ao propósito.

“As fotos e os textos, definitivamente, não eram bons. Ofereci uma consultoria informal para aprimorar o material”, conta. “Ela aceitou, a coisa funcionou e logo depois ela acertou um relacionamento bacana”, acrescenta ele.

Primeiros conselhos foram dados no Ibirapuera

Primeiros conselhos foram dados no Ibirapuera

Arquivo Pessoal/Romeu di Sessa

Conselheiro costumava ficar entre duas e três horas no banco a cada domingo, antes da pandemia começar. Ele calcula ter dados toques bem intencionados, pessoalmente, a pelo menos 500 pessoas, desde 2015, fora os recados enviados pela internet.

“Relação pessoal, como namoro, casamento, caso, amante, separação, 'DR' e afins, é o tema mais pedido, seguido por questões profissionais e problemas de relacionamento familiar. Essas três áreas envolvem 99% das solicitações”, contabiliza.

Mas há também requisições inusitadas, leves e curiosas, como “qual é o melhor lugar de São Paulo para passear?”, “meu filho foi pego fumando narguilé na escola: o que faço?” ou “ficarei dois meses na Inglaterra: levo mulher e filha ou não?”

Em um domingo antes do início da pandemia, mãe e filha colocaram Conselheiro entre elas no banco da Paulista e foram direto ao ponto. “Somos muito altas. Bem mais do que gostaríamos. O que fazer?”

Diante do resultado do código determinado pela genética em combinação solidária com o destino, não restou saída ao consultor das tardes de domingo a não ser apelar para o humor ferino: “cortem parte das pernas.”

Di Sessa lembra de alguns casos de forma especial. Um deles é o de um rapaz que, tentando por à prova a suposta capacidade do roteirista de gerar aconselhamento útil sobre vários temas, perguntou o que ele poderia dizer sobre os “buracos de minhoca.”

Ação da Paulista inclui bom humor com a fauna descontraída

Ação da Paulista inclui bom humor com a fauna descontraída

Arquivo Pessoal/Romeu di Sessa

Para azar do cidadão, Conselheiro também sabia lá um pouco da coisa. “Disse que, ao contrário do que muitos pensam, na Física, um 'buraco de minhoca' é uma característica, hipotética, claro, de continuidade entre espaço e tempo. Em palavras mais simples, seria um atalho através do espaço e do tempo. Ele teria, claro que sempre por hipótese, no mínimo duas bocas conectadas a um único tubo. O objeto poderia ir de uma boca para outra pelo tubo”, lembra ele.

Explicação dada, intrigou Conselheiro o fato de o rapaz se fixar muito em conversas sobre atalho.

“Perguntei se o interesse vinha, por acaso, do fato dele estar na tentativa de abreviar caminho para resolver alguma questão grave sem desgaste ou sofrimento. E acrescentei: ‘se por acaso for isso, desista: não há atalhos para enfrentar problemas importantes. O negócio é encarar cada etapa e superá-las corrigindo as coisas, ou então a dificuldade permanecerá. E fui falando, falando, falando... Ao final, o rapaz estava em silêncio, os olhos marejados fixados em mim”.

Conselheiro não se define nem gosta de ser identificado como psicólogo ou guru, pontos, por sinal, lembrados por muitos dos que sentam nos bancos ou pedem dicas pela internet.

“Tenho certa experiência de vida e muita vontade de ajudar e lidar com a coisa pública. Encaro a questão do outro com tranquilidade e isenção porque estou de fora, sem envolvimento e, quase sempre, também sem desdobramentos ou contatos futuros”, explica.

É ainda alguém que acha mais nobre ser solidário do que aderir ao pensamento pequeno de que conselho seria vendido, e não dado, caso fosse de fato bom.

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